Mostrar mensagens com a etiqueta Sentidos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sentidos. Mostrar todas as mensagens

domingo, 16 de maio de 2010

Os Sentidos - O Tacto



Nunca foi pessoa de grandes afagos...nem gestos expontâneos de afectos...o que contrastava com a ternura que emanava dos seus olhos....por isso deliciei-me com aquele abraço...

Nem em miúdo recebera tamanha ternura....

Inverteramos os papeis...seu corpo era hoje uma amortização de uma robustez espantosa...enquanto eu estava no meu auge fisico...nossos peitos fundiram-se naquele abraço...de tal forma, que alinhámos o ritmo dos nossos corações...arritmias partilhadas...como entendi as suas palvaras - "De vez em quando ele teima em descansar..."

Como eu tinha esperança, que através daquele abraço...meu coração se sintonizasse com o seu...como relógios que se acertam uns pelos outros...e tal como o relojoeiro no seu trabalho minucioso..acertar os sistemas de propulsão sanguinea que teimavam em não irrigar todas as partes de seu corpo. Naquele aperto sentido...peito com peito...senti seu calor....nossos braços entrelaçados, como gravatas de nós apertados...estrangulavam-nos de carinho...um carinho que nutriamos mutuamente, mas que tantas vezes por orgulho...friamente o camuflávamos....talvez uma asfixia provocada pela intensidade deste aperto pudesse realizar um reset a todo o seu organismo....esperança vã...

Não sei quanto tempo durou aquele abraço...mas foi a sensação mais maravilhosa que guardei. Dei-lhe então as mãos...ele apertou-mas...num sinal...que nem mil palavras poderiam expressar de forma tão clara o que lhe ia na alma...nunca acreditei em mecanismos pré-sensoriais...mas o facto é que a energia que nossas mãos transferiam...deixaram-nas húmidas pela evaporação do calor dos nossos corpos.

Mãos entrelaçadas...apertadas ao limite...debruçei-me...e beijei-lhe a face....sentido as rugas de uma vida que expirava...que se despedia...por incumprimento de um único orgão...que teimava em não receber o reforço que eu lhe queria dar...

Porque raio o nosso corpo, no alto da sua extraordinária complexidade, se comporta desta forma ?
Um unico elemento defeituoso e deita tudo a perder...porque será que um rim não assume este papel ?...bolas temos 2!! ..ou porque não um pulmão..?
Organismos tão articulados...de origem divina...mas que no fundo apresentam tão pouca polivalência! Basta um componente para toda uma linha de fabrico...deixar de produzir...

Obrigado pelos abraços que hoje me dás, cada vez que preciso deles...esforçando-me por imaginá-los tão ou mais saborosos do que aquele...

Quanto ao meu coração...esse cá anda...sofrendo de outras maleitas...

(...e termina o ciclo dos sentidos...)


quarta-feira, 12 de maio de 2010

Os Sentidos - A Audição


Mais um passo...já foram tantos...que lhes perdi a conta...inigualavél sensação dos pés nús na areia molhada...mais um passo...olho para trás...uma pegada que deixo...a seguir a tantas outras...sorrio para mim próprio.

Vou caminhando sem pressa...os  miúdos com a bola...um calor fantástico...os splashs dos mergulhos...e continuo a andar...os risos das crianças...as brincadeiras na areia...as raquetes...corpos esculpidos...a rebentação de ondas encadeadas...olho para trás...e vejo as minhas pegadas...as pegadas dos outros...e ainda a dos outros...

Vou caminhando..um calor fantástico...uma brisa amena...olho para a àgua...conto as ondas...olho para trás...estou-me a afastar....vejo pontos distantes...chapéus de sol que viraram campos de girassois...não sei o quanto caminhei...mas não páro...molho os pés...refresco-me naquela àgua cristalina...

Vou caminhando...olho para trás...não vejo ninguém...estou claramente só...olho para cima...o sol encadeia-me...azul de um céu de Verão replandescente...propositadamente coloco todo o meu peso no próximo passo...uma pegada impressa...fica a minha marca !...uma brisa amena...ausência de ruidos humanos...

Vou caminhando...não sei o quanto andei...olho para trás...nada vejo para além do areal...olho para cima...o sol encadeia-me...um azul fantástico...olho para o mar...sigo a sequência das pequenas ondas...a traineira que se afasta...a rebentação nos meus pés...agua limpida...limpa-me a alma...

Vou caminhando...não sei o tempo que passou...fecho os olhos...o que oiço?...a brisa...ouvem a brisa?
as ondas...o mar...a rebentação...conseguem-na ouvir ?....olho para cima...ela acompanha-me...num voo rasante...mas porque virá ela?....seu papo branco...asas alvas...recortam o céu azul replandescente de Verão...e o som que emite...espaçado...gritos que me chamam...olho para trás...nada vejo...

Vou caminhando...não me interessa onde estou...calco meus pés na areia molhada...o molde do meu pé desenhado na areia...unica presença humana...doem-me os dedos...agua limpida...nada oiço que não o mar...as ondas em cadeias multiplas...olho para cima...ela não me deixou...guiou-me neste imenso areal...e sibila...chama-me....no seu grito caracteristico...voa em circulos...

Sento-me...descanso...olho em frente...não separo o mar do céu...onde está a linha do horizonte....? fecho os olhos...e oiço o mar...a brisa...o grito da gaivota que insiste em chamar-me...e descanso...que silêncio ensurdecedor de mar....que calor fantastico...

Levanto-me...tenho de regressar...olho para trás...que estranho? não encontro as minhas pegadas...continuo a caminhar...olho novamente...e nada ! só vejo patas...patas de gaivota...onde estão os meus pés ? onde está  a gaivota ?




quinta-feira, 29 de abril de 2010

Os Sentidos - A Visão


Foi uma época da minha vida profissional, em que devo ter feito um pacto com o kilometro...aquilo é que foi comer distancias à pazada...senti na pele o que custava percorrer cada metro das várias formas e feitios..

Houve várias formas de transporte, mas o comboio apanhou-me...e passou-me a guiar vezes sem conta o percurso Lisboa->Porto e Porto->Lisboa...tantas foram as vezes, em horários tão diversos..que dava por mim em momentos de paragem cerebral...deixara pura e simplesmente de ter noção de qual a direcção que estava a tomar...cheguei a pensar que a seguir à estação de Aveiro era a de Vila Franca...ao que cheguei!

Como é estranho o mecanismo de racicionio do nosso cérebro...parece que entramos em hibernação, quando atingimos um certo ponto de fadiga fisica ou mental.
Andei nisto durante alguns meses...contando os dias pelo numero de comboios que apanhava, as horas pelos apeadeiros onde me encontrava e os minutos pelos postes de alta tensão que bailavam na janela de forma apressada à velocidade do comboio. Embalava-me ao som do peso das carruagens sobre os carris...sobressaltando-me aquando dos saltos nas junções. Era um concerto, em que todas as partituras já as sabia de cor.

Rotina...de sempre:

  • Chegar sempre em cima da hora à estação...

  • apanhar comboio...

  • deambular pelas carruagens até ao lugar certo...

  • sentar e ler os jornais diários...

  • dormitar 20 minutos, 1/2hora...1 hora o máximo...

  • arregalar os olhos...situar-me no tempo e no espaço...

  • A carruagem mini-bar....apinhado de caras ensonadas...enfadadas...corpos inertes num balanço ritmado

  • saudar a empregada...de manhã a Editinha, à tarde a clarisse, à noite...o Jorge

  • conversas da treta....repetitivas
É de facto o sitio de eleição para um viajante solitário, a famosa carruagem Minibar - cenário de tantas novelas: assédios, encontros, desencontros, negócios claros, negócios escuros, alcolicos disfarçados, toxicodependentes camuflados, malucos, doidos, doidos varridos. Quantas e quantas vezes não passei a viagem inteirinha nessa carruagem...

Numa determinada viagem...sento-me nos bancos corridos do MiniBar...apenas eu e um individuo estranho...estrangeiro....numa lingua que não percebi numa primeira instância....

- "Olhe é melhor tomar qualquer bebida alcólica para o perceber..." gracejou a Editinha, olhando para mim.
- "Ok, dê-me uma cerveja então..." retorqui eu.

E assim foi...mais de 150Km num italiano inglesado...com espanhol pelo meio....que percebi que o individuo cujo banho era pratica pouco usual, me explicava que tinha vindo à deriva a Portugal, mas que era sonoplasta e que ia fazendo trabalhos intenerantes....que o maior gozo era a liberdade e paz, que este retiro que estava a efectuar em terras lusas lhe estava a propiciar. Como invejei por instantes aquele ser repugnante, tanta coisa me tinha acontecido ultimamente...amigo que perdi num acidente estúpido...e que não parava de me assolar....como queria paz de espirito sossego...

Não aguentei mais aquele dialogo, e fui para o meu sitio tentar dormir um pouco no que ainda restava da viagem...era o único na minha carruagem...noite carregada lá fora...luz muito ténue no habitáculo onde as cortinas bailavam ao movimento da locomotiva...encostei a cabeça ao vidro...fechei os olhos...

----------------------------------------
- "Bolas estavas ai e não dizias nada ?"
- "TU PRECISAVAS DE DESCANSAR...NÃO TE QUIS ACORDAR"
- "Puxa que disparate...acordavas-me logo...não tens aparecido ?"
- "SABES QUE ANDO SEMPRE POR AI...ESTOU SEMPRE EM CUIDADO CONVOSCO"
- "E tens tempo, empresário sempre ocupado...ehehe"
- "SABES BEM QUE AGORA TEMPO, NÃO ME FALTA..."
- "Quero tanto conversar contigo...desabafar contigo..."
- "NÂO GOSTO DE VER COMO ANDAS ULTIMAMENTE...UM AUTOMATO"
- "Que queres que eu faça...é o trabalho...é tudo sabes bem..."
- "OLHA-ME NOS OLHOS"
- "Sim Jota estou a olhar...."
- "OLHA-ME NOS OLHOS MESMO!!"
- "Sim diz..."
- "NÂO PRECISAS VIR TER COMIGO...POR ISSO PROMETE-ME QUE O FUTURO SERÀ DIFERENTE...PROMETES?"
- "Que queres dizer com isso ?"
- "Estás a ouvir...que queres dizer com isso ??"
- "Estás a ouvir....??"
 -------------------------------------
Uma junta de união nos carris...provocou um balanço tal na carruagem...que acordei sobressaltado com a cabeçada que dei no vidro.... 

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Os Sentidos - O Paladar



A refeição tinha sido muito agradavel. O ambiente familiar existente, tinha permitido criar animação entre todos! Não que tivesse sido farta...mas a comida estava bem confeccionada...diria mesmo requintadamente elaborada, sustentaada em temperos bem tradicionais.

Os miúdos inquietos...ansiavam pelos gelados...sempre do gosto da pequenada...para os adultos a escolha estava bem dificil...

Mirei a carta de sobremesas...como se a de vinhos se tratasse..não que fosse muita a escolha, o facto é que a comida precedente advinhava um excelente toque final...Olhei de cima para baixo...re-olhei de baixo para cima...já me tinha chamado a atenção...sempre foi um dos meus favoritos...chamei o empregado e pedi:

- "Olhe...para mim queria um leite creme...por favor!!"

Esperei uns minutos...na expectativa do sucesso ou insucesso do pedido...

Lá vinha o empregado em passo acelerado, deixando a encomenda!...parecia um grande pastel de nata...mas emoldurado por uma capa de barro...ali estava ele...prestes a ser devorado.......tenho uma mania desde pequeno...comer o leite creme...com uma colher de café!!...que querem é mania!! ...notei a inveja do restante grupo...mas de forma implacavalmente egoista...e fugindo a todos os preceitos de boa educação...ataquei!!

A capa caramelizada...que flutuava à superficie do liquido amarelo...com as suas cores acastanhadas...promoviam uma salivação extra! Como compreendia aqueles canitos..que salivam desalmadamente...na esperança que seu dono lhes dê um pedaço de bolacha, aquele pedaçito que lhes acenam de forma troçeira....pobre do animal!!

Mas porque estaria eu a fazer aquilo a mim próprio ??...o gozo do masoquismo...aumentar os indices de satisfação...?

Delicademente introduzi a colher de café no recipiente de barro...pela borda...a textura de um creme bem batido...não oferecia qualquer resistência à minuscula colher...e deliciei-me naquele gesto......a minha sobrinha pequena, olhava para mim incrédula !!!  "O meu tio deve estar doido!!"...pensou ela

De repente senti-me Jesus Cristo na ultima ceia, com todos os seus apóstolos a seguir seus gestos, com uma adoração e estupefacção, por este bailado que eu teimava em realizar...

Indiferente a toda a critica velada dos meus "apóstolos"...ergui a minúscula colher...carregada de leite amarelado...pintalgada por laivos de caramelo...ao ponto de graviticamente, deixar pender algumas gotas do dito mel...levo-a à boca...e tomo o contacto com o nectar...primeiro na lingua...depois no palato...papilas gustativas ao rubro...

----------------------------------------

- "Ò filho...estou à tua espera !!"
- "Vou já avó...vou já..." - e de rompante e de forma desajeitada...desmanchei inadvertidamente, uma construção em lego que tanto trabalho tinha me dado a fazer...mais de 2 horas...de esforço.Corri do quarto para a cozinha da minha avó, tal qual um foguete...

Como adorava aquela cozinha...bancadas largas...fogão que parecia industrial...mas acima de tudo a mestria, a candura da minha avó naquela arte de bem cozinhar. Que cheirinhos que emanavam sempre daquela cozinha...cheia de luz...reluzindo a capacidade da minha querida avó!

- "Vá lá filho...sem o teu toque de especialista...isto nunca fica bom...vá força!"

Realmente, como me sentia vaidoso....eu um pequenote de cinco anos...especialista ??? ...o que não faz a experiência quando se educa pela 2ª vez...

- "Vá o açucar está ali...podes polvilhar por cima das taçinhas..."

Embuido de um espirito de missão, e com um cuidado cirurgico..esparramei montinhos de açucar em cada recipiente...e com uma voz de general...

- "Avó...podes ir buscar o ferro!!"

Minha avó acatou a ordem com um sorriso...e abeirando-se da bancada...e com uma delicadeza só sua...um por um...colocava o ferro escaldante sobre o açucar...aquele som de queima...qual ferro a queimar o gado...

Como eu adorava ver aquele ritual...mas o cheiro a caramelo que pairava no ar...esse sim...tirava-me do sério!!...e como recompensa de tão dificil jorna...minha avó...dava-me sempre a honra de ser o primeiro a comer aquele nectar dos deuses!!

----------------------------------------

- "Tio...tio...estás a dormir?? ...olha vou tirar-te um bocadinho" ... e com uma colher que parecia de sopa...a minha sobrinha comeu-me quase metade da taça de leite creme de uma só vez!

domingo, 4 de abril de 2010

Os Sentidos - o olfacto



Um calor abrasador, daqueles dias em que todos os sentidos estão estimulados e exarcebados. Estava sequioso...qualquer coisa fresca servia. Vislumbrei um café - a minha salvação.

Esolhi uma mesa na orla da esplanada, encostada a uma parede caiada...reflectindo um branco imaculadamente ofuscante. O empregado aproxima-se e pergunta-me:
- "O que deseja ?"
- "Àgua das pedras...bem fresca...por favor"

Num vicio de miúdo, recosto-me para trás...encosto a cabeça na parede escaldante...um calor percorre-me toda a coluna...vertebra a vertebra ....como se de pequenos choques eletricos se tratassem...mas era uma sensação respousante....quase embriagante. O equilibrio era instavel.,,,,suportando a cadeira todo o meu peso apenas nas suas pernas traseiras...conseguindo eu realizar o contrapeso, esticando as minhas pernas e tocando o chão com os bicos dos meus pés.

Que calor!

Fechei os olhos...inspirei profundamente...o ar era tórrido...parecia queimar as minhas narinas..... Estranha sensação...parecia que meu cerebro recordara-se de aromas quentes ...esquecidos...profundamente esquecidos...nos seus reconditos compartimentos de memória,

Inalei novamente....esforçando-me agora por destinguir na palete de odores qual o cheiro que me despertara.. concentrei todos os meus poderes no meu sentido olfactivo...cerrei os olhos o mais que pude...foquei-me...e como num levitação...viajei....

-------------------------------------------------------------------------------------------------------
Sentia o calor na cara...salpicos de raios solares...picavam as minhas faces...sensação estranha! Sentia-me agora mais leve...sim, mais leve...leveza também de espirito....espirito que passara a inocente...que passara a um estado de pura ingenuinidade.

Abri os olhos...embora no mesmo equilibrio instavél, esta cadeira tinha braços diferentes...e não conseguia chegar com os pés ao chão....uma pala de um boné azul....fornecia-me uma pequena sombra a uma testa pequena,...por onde passava agora a minha mão...

Agora de olhos bem abertos...via um céu azul....de um azul...que sabia agora que muitas vezes se tranformava em cinzento dos mais escuros que possa existir...mas aquele era azul...pintado a pastel...rodei lentamente a cabeça para a direita...e vi-te!! Hà tanto tempo que não te via...por onde tens andado?? porque não tens aparecido??....que saudades desse sorriso doce...desses olhos castanhos meigos...de uma sabedoria sem igual...e numa voz que não consigo perceber...saiu-me de uma forma aguda:
- "Vô...onde estarei...quando fôr crescido?"
- "Provavelmente sentado numa cadeira...."

-------------------------------------------------------------------------------------------------------
- "Está aqui a sua àgua...."

e abrindo os olhos agradeci ao empregado!